Repórter Estrábico


Carta de Enfermeira PortuguesaCarta de Enfermeira Portuguesa
Esta profissional de saúde do Hospital de Lisboa e Vale do Tejo partilhou cenário que é vivido nesta pandemia.
Deixamos abaixo carta sensibilizadora!



"Olá, portugueses. Estas palavras são uma forma de desabafo. Um desabafo de uma enfermeira, de uma mãe, de um membro de uma família. O desafio que nos dias de hoje se impõe, a pandemia Covid-19, faz- me viver numa batalha, uma batalha entre todas estas “personagens” que no meu dia a dia desempenho. Como enfermeira visto a camisola, sem olhar para trás, sem pensar duas vezes, quer pela profissão que tanto me orgulho, quer pelo meu dever ético e deontológico. Sempre que saio de casa para o hospital durante estes últimos dias, faço-o com a convicção e com a coragem de ir poder fazer mais e melhor pelos outros.

Já muito se disse sobre o que está a acontecer, da forma como a Covid-19 está agitar os hospitais. Tenho a convicção de que estamos na base da pirâmide, no início do caminho e que, apesar da agitação que se começa a fazer sentir, ainda estamos tranquilos, ainda estamos a ver o que vai dar, ainda nos estamos a adaptar ao que de dia para dia vai aparecendo. Tudo isto é uma novidade tanto para nós, que estamos no terreno, como para os nossos superiores que vão gerindo os recursos humanos e materiais disponíveis. Mas uma coisa é certa, a Covid-19 ainda agora chegou e não está de saída. Está para dar luta, luta essa que estamos dispostos a travar, seja lá o que isso queira dizer. Acredito e sou uma defensora do Serviço Nacional de Saúde — ele existe porque existem utentes, porque haverá sempre de quem cuidar.

No entanto, neste momento não poderia deixar de expressar a minha maior preocupação, e faço um apelo: ajudem a preservar a vossa maior arma contra esta guerra, os profissionais de saúde. Nunca trabalhei com a necessidade de racionar tanto os equipamentos de proteção individual como neste momento. Se nos querem proteger, se nos querem preservar no ativo, protejam-nos. As máscaras cirúrgicas simples de nada podem perante este vírus, pois a única função destas é fazer com que as gotículas do próprio indivíduo não sejam transmitidas para outros ou superfícies. O que nós queríamos era mesmo estar protegidos deste vírus para podermos lutar contra ele, e para isso precisávamos de ter máscaras com filtros de micro partículas, algo que ainda não vi no nosso campo de batalha. E é isto, por um lado sinto-me valorizada mas tão pouco protegida.


“Vou sair todos os dias para o hospital, por vocês, pelos vossos, pelos nossos”
Como mãe de um bebé, sinto o enorme dever de o proteger, pela sua vulnerabilidade natural e pela minha responsabilidade de mãe. Mas todos os dias que saio do trabalho, venho de coração apertado, pelo risco e pelo medo de ser a porta de entrada da minha casa para esta pandemia. O que posso eu fazer para além do que já faço? Chegar, lavar as mãos, ir direta para o duche, e só depois responder ao apelo desesperado daquele que vê a mãe entrar e apenas quer o seu colo, o seu cheiro, o seu afeto.

O dever de profissão chama. O dever de mãe chama. Os próximos dias, o próximo mês será uma incógnita, por isso, vamos viver um dia de cada vez, com fé e esperança, mas sem esquecermos que juntos, e somente unidos, podemos fazer a diferença. Nós, profissionais de saúde podemos ser as primeiras fileiras desta guerra e vamos estar lá, mas todos somos chamados a lutar nesta batalha. Não se esqueçam de ficar em casa, pois só o isolamento social pode quebrar as cadeias de transmissão, dentro das vossas rotinas. Lavem as mãos, limpem as superfícies e mantenham uma boa higiene ambiental.

As minhas mangas estão arregaçadas, estou pronta para o que ainda está para vir. Não vou deixar de ser enfermeira para ser mãe, nem de ser mãe para ser enfermeira. Vou fazer o que sei, da melhor forma que puder. Não vou baixar os braços para a Covid-19.

Vou sair todos os dias para o hospital, por vocês, pelos vossos, pelos nossos. Mas, peço-vos, façam a vossa parte, fiquem em casa, por nós e pelos nossos."


Fonte e Crédito das imagens : nit.pt


Etiquetas: Repórter Estrábico, Covid-19

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